Partida Sempre-Viva: como Anderssen transformou uma ameaça em ataque
Cristina atravessava a Praça dos Números ao lado de Glória quando percebeu que ela havia diminuído o passo.
A região central de Quantáris estava cheia naquela tarde. Jovens conversavam perto da fonte, bicicletas cruzavam os caminhos de pedra e alguns grupos ocupavam os bancos da praça. O Colégio Galois ficava a alguns quilômetros dali, mas Glória parecia não ter nenhuma pressa para voltar.
— Espera um pouco.
Ela tirou da mochila um pequeno tabuleiro de xadrez e colocou algumas peças sobre o banco.
— Você trouxe isso até aqui? — perguntou Cristina.
— Nunca se sabe quando uma partida interessante pode aparecer.
Só que Glória não montou a posição inicial.
A partida já estava acontecendo.
Cristina observou o tabuleiro por alguns segundos. Então encontrou o problema.
— A dama preta está ameaçando mate.
— Está.
— Então as brancas precisam se defender.
Glória levantou os olhos.
— Precisam?
Cristina apontou para o tabuleiro.
— Glória… é mate.
Talvez você pensasse exatamente como ela.
Quando nosso adversário ameaça alguma coisa importante, uma reação parece óbvia:
ele atacou, eu defendo.
Mas existe uma pergunta que muitos jogadores esquecem de fazer:
antes de responder à ameaça do adversário, você procurou o que ainda pode fazer?
Em 1852, Adolf Anderssen encontrou uma resposta tão impressionante que aquela partida atravessaria gerações.
Ela ficou conhecida como a Partida Sempre-Viva.

Glória desafia Cristina a observar toda a posição antes de responder à ameaça adversária.
A partida que se recusou a envelhecer
A Sempre-Viva foi disputada em Berlim, em 1852, entre Adolf Anderssen e Jean Dufresne.
Anderssen conduzia as peças brancas. Dufresne jogava com as pretas.
A partida nasceu do agressivo Gambito Evans, uma abertura em que as brancas aceitam abrir mão de material em troca de desenvolvimento, espaço e iniciativa.
Não precisamos reproduzir aqui tudo o que aconteceu desde o primeiro lance — você poderá fazer isso na partida completa no final do post.
O que importa para nossa história é o momento em que o tabuleiro chegou a uma posição extraordinária.
Depois de 19.Rad1!, Dufresne jogou:
19…Qxf3?
Sua dama capturou em f3 e passou a ameaçar:
Qxg2#
Xeque-mate.
Glória apontou para a posição.
— É aqui.
Cristina observou novamente.
— E eu continuo achando que Anderssen precisa se defender.
Posição após 19…Qxf3?
As pretas ameaçam Qxg2#. O que você jogaria com as brancas?
Quando defender parece ser a única opção
A reação de Cristina é comum entre quem está começando.
Atacaram nossa dama? Tentamos salvá-la.
Ameaçaram uma peça? Pensamos em defendê-la.
Nosso rei está em perigo? Procuramos imediatamente alguma maneira de acabar com a ameaça.
Nada disso está errado.
O problema aparece quando reagir se transforma em hábito automático.
— Se a dama chegar a g2, acabou — disse Cristina.
— Sim.
— Então Anderssen precisa impedir isso.
Glória respondeu com uma pergunta:
— Quando você viu a ameaça, para onde olhou?
— Para o meu rei.
— E depois?
— Para a dama preta.
— E para o rei de Dufresne?
Cristina ficou em silêncio.
Até aquele momento, estava olhando apenas para o problema criado pelo adversário.
Agora voltou os olhos para o outro lado do tabuleiro.
Glória não entregou a resposta.
— A ameaça existe. Mas antes de defender, procure lances que obriguem o outro jogador a responder.
Cristina examinou a posição novamente.
Xeques.
Capturas.
Ameaças.
Então seus olhos chegaram à torre.
— Ela pode entrar em e7.
Glória sorriu.
Anderssen escolhe quem vai reagir
Anderssen jogou:
20.Rxe7+!
— Xeque — disse Cristina.
E era justamente esse pequeno símbolo que mudava tudo.
Dufresne continuava ameaçando mate em g2.
Mas não podia executar sua ameaça enquanto seu próprio rei estivesse em xeque.
De repente, era ele quem precisava reagir.
Posição após 20.Rxe7+!
Dufresne respondeu:
20…Nxe7
Então veio um dos lances mais famosos da partida:
21.Qxd7+!!
Cristina arregalou os olhos.
— A dama?
Sim.
Anderssen oferecia sua própria dama — mas novamente com xeque.
Posição após 21.Qxd7+!!
Depois de:
21…Kxd7 22.Bf5+ Ke8 23.Bd7+ Kf8
a sequência terminou com:
24.Bxe7#
Xeque-mate.
Posição final após 24.Bxe7#
Cristina ficou alguns segundos observando a posição.
Poucos lances antes, parecia ser Anderssen quem estava em perigo.
Agora Dufresne havia passado toda a combinação respondendo aos problemas criados pelas brancas.
— As pretas não conseguem fazer nada — disse Cristina.
Glória inclinou a cabeça.
— Conseguem.
Fez uma pausa.
— Só não conseguem escolher.
Cristina voltou alguns lances.
— Então Anderssen venceu porque sacrificou a dama?
— Não. Se você entregar sua dama toda vez que alguém ameaçar mate, suas partidas vão ficar bem curtas.
Cristina riu.
O que a Sempre-Viva ensina para as suas partidas
O verdadeiro ensinamento daquela posição não é:
“sacrifique suas peças.”
Também não é:
“ignore as ameaças do adversário.”
A ameaça de Dufresne era real.
A lição é mais simples:
não responda automaticamente antes de olhar a posição inteira.
Quando seu adversário criar uma ameaça, primeiro entenda o que ele quer fazer.
Depois procure suas próprias possibilidades.
Uma maneira prática de começar é perguntar:
Tenho algum xeque?
Tenho alguma captura importante?
Posso criar uma ameaça mais forte?
Existe algum lance que obrigue meu adversário a responder?
Esses movimentos são chamados de lances forçantes porque diminuem as opções disponíveis para o outro jogador.
Isso não significa que atacar será sempre a resposta.
Às vezes será preciso defender.
Em outras posições, trocar peças, recuar ou simplificar será melhor.
Mas existe uma grande diferença entre escolher defender e defender apenas porque foi a primeira reação que apareceu na sua cabeça.
Cristina voltou à posição depois de 19…Qxf3?.
Olhou para g2.
Depois para o rei preto.
— Agora eu entendi.
Glória sorriu.
— O quê?
— Antes eu estava olhando só para aquilo que ele queria fazer comigo.
O xeque-mate terminou. A história não.
O movimento da Praça dos Números começava a diminuir.
Alguns jovens ainda permaneciam próximos à fonte quando Cristina começou a guardar as peças. Antes de fechar o tabuleiro, porém, percebeu pequenas flores em um canteiro perto do banco.
— Que flores são aquelas?
Glória acompanhou seu olhar.
— Sempre-vivas.
Cristina parou.
— Igual ao nome da partida?
— Elas são conhecidas por conservar durante muito tempo sua forma e aparência.
Cristina olhou novamente para o tabuleiro.
A partida havia acontecido em 1852.
Anderssen e Dufresne pertenciam a outro século.
O tabuleiro daquela tarde já não existia.
Mas 19…Qxf3? ainda criava a mesma dúvida.
20.Rxe7+! ainda surpreendia.
E 21.Qxd7+!! ainda fazia alguém perguntar:
— Ele realmente entregou a dama?
Cristina sorriu.
— Então ela ficou velha sem envelhecer.
— Acho que dá para dizer assim.
Talvez seja justamente por isso que algumas partidas atravessam gerações.
Não apenas porque foram brilhantes.
Mas porque continuam ensinando.
Mais de 170 anos depois, alguém que está começando no xadrez ainda pode olhar para aquela posição e aprender a não reagir automaticamente, procurar possibilidades e disputar a iniciativa.
Cristina recolocou a torre branca na posição anterior ao sacrifício.
— A partida terminou em 1852…
— Terminou.
— Mas ainda estamos jogando ela.
Talvez aquele fosse o melhor significado para seu nome.
A Sempre-Viva não continua viva porque nunca terminou.
Ela continua viva porque, toda vez que alguém olha para aquela posição e aprende alguma coisa com ela, uma parte da partida começa novamente.
Cristina voltou o tabuleiro na própria direção.
— Coloca antes de Rxe7 outra vez.
— Por quê?
— Quero ver se encontro sozinha.
Dessa vez, ela não olhou apenas para o próprio rei.
Olhou para o tabuleiro inteiro.
A partida havia terminado havia mais de um século.
Para Cristina, estava apenas começando.
Reveja a partida Sempre-Viva lance a lance
Agora que você conhece a ideia por trás da combinação, reproduza a partida completa e veja como aquela posição surgiu.
Quando chegar a 19…Qxf3?, pare antes de avançar.
Imagine que as peças brancas são suas.
Você encontraria 20.Rxe7+!?
CONTINUE APRENDENDO
A Sempre-Viva nasceu do agressivo Gambito Evans, dentro da família de posições da Abertura Italiana.
Se você quer entender melhor as ideias que aparecem depois de desenvolver o bispo para c4 e lutar pela iniciativa desde os primeiros lances:
[CONHEÇA A ABERTURA ITALIANA — VOLUME 1]
E existe outra partida de Anderssen em que ele parece entregar material demais para continuar atacando.
Só parece.