Nona Gaprindashvili: a primeira mulher Grande Mestre do xadrez
No Clube de Xadrez Genial, Glória observava uma posição no tabuleiro quando a professora Marla lançou uma pergunta:
— Você sabe quem foi a primeira mulher a receber o título de Grande Mestre da FIDE?
Glória pensou por alguns segundos. Judit Polgár? Hou Yifan?
Marla sorriu.
— Antes delas, houve Nona.
A resposta escondia uma história muito maior do que um título.
Durante décadas, o topo do xadrez competitivo foi ocupado quase exclusivamente por homens. Para uma mulher, chegar ao Campeonato Mundial já representava uma façanha. Competir com sucesso nos mesmos torneios dos grandes nomes do xadrez aberto parecia uma barreira ainda maior.
Nona Gaprindashvili atravessou as duas.
E sua história mostra algo que vale dentro e fora do tabuleiro: às vezes, um limite continua parecendo absoluto apenas porque ninguém conseguiu ultrapassá-lo ainda.

A menina de Zugdidi que chegou ao Campeonato Mundial
Nona Gaprindashvili nasceu em 3 de maio de 1941, em Zugdidi, na Geórgia, então integrante da União Soviética.
Ela cresceu cercada por irmãos e conheceu o xadrez ainda criança. O que poderia ter permanecido apenas como uma diversão familiar rapidamente começou a revelar algo diferente.
Nona tinha talento.
Ainda jovem, mudou-se para Tbilisi e passou a desenvolver seu jogo de maneira mais estruturada. Os resultados apareceram cedo, e seu nome começou a chamar a atenção no competitivo sistema enxadrístico soviético.
Em 1961 veio a oportunidade que poderia mudar tudo: Gaprindashvili venceu o Torneio de Candidatas e conquistou o direito de enfrentar a então campeã mundial feminina Elisaveta Bykova.
Era o primeiro grande obstáculo de sua carreira.
Em 1962, aos 21 anos, Nona enfrentou Bykova pelo título mundial.
O resultado foi contundente: sete vitórias, nenhuma derrota e quatro empates.
Nona Gaprindashvili era a nova campeã mundial.
Mas chegar ao topo seria apenas o começo.
Dezesseis anos entre as melhores do mundo
Conquistar um título é difícil.
Continuar campeã quando todas as adversárias estudam suas partidas, procuram suas fraquezas e se preparam especificamente para derrotá-la é outra história.
Nona permaneceu campeã mundial feminina de 1962 a 1978.
Durante esse período, defendeu sua coroa quatro vezes: três contra Alla Kushnir, em 1965, 1969 e 1972, e novamente em 1975, dessa vez contra a também georgiana Nana Alexandria.
Seu xadrez ajudava a explicar tamanha longevidade.
Gaprindashvili tornou-se conhecida por um estilo ativo e combativo. Não tinha receio de entrar em posições complexas, assumir riscos calculados e disputar a iniciativa.
Mas reduzi-la simplesmente a uma atacante seria um erro.
Para permanecer durante tantos anos entre as melhores, era necessário algo ainda mais importante: capacidade de adaptação.
Os adversários mudavam. As posições mudavam. A preparação mudava.
Ela também.
E aí aparece uma das primeiras lições que a história de Nona oferece a quem está aprendendo xadrez: decorar boas jogadas pode ajudar, mas aprender a pensar diante de situações novas vale muito mais.
Quando Nona atravessou uma barreira ainda maior
Ser campeã mundial feminina já colocava Nona entre as grandes figuras de sua geração.
Mas havia outro território a conquistar.
Gaprindashvili passou a competir regularmente em torneios abertos, enfrentando jogadores titulados e Grandes Mestres.
E não estava ali apenas para participar.
Um dos momentos mais importantes ocorreu no Lone Pine International de 1977, nos Estados Unidos, um forte torneio aberto.
Nona terminou empatada em primeiro lugar e derrotou quatro Grandes Mestres durante a competição.
O desempenho reforçou algo que sua carreira vinha mostrando havia anos: ela podia competir muito além das fronteiras tradicionais do xadrez feminino.
Em 1978, a FIDE concedeu a Nona Gaprindashvili o título de Grande Mestre — GM.
Ela se tornou a primeira mulher da história a receber o título aberto de Grande Mestre da FIDE.
Essa distinção é importante.
Não se tratava de um título destinado exclusivamente às competições femininas. Era o título de Grande Mestre do sistema geral da FIDE.
Uma barreira que durante muito tempo parecera distante acabava de ser atravessada.
E depois que alguém demonstra que determinado caminho existe, fica muito mais difícil dizer aos próximos que ele é impossível.

O título mudou de mãos, mas Nona não saiu do tabuleiro
Em 1978, outra jovem georgiana surgiu para desafiar a campeã.
Seu nome era Maia Chiburdanidze.
Com apenas 17 anos, Maia derrotou Nona no match pelo Campeonato Mundial e iniciou uma nova era no xadrez feminino.
Seria fácil terminar a história de Gaprindashvili naquele momento.
Só que ela não terminou.
Nona continuou competindo durante décadas. Foi cinco vezes campeã soviética feminina, participou repetidamente das Olimpíadas de Xadrez e permaneceu obtendo resultados importantes muito depois de perder o título mundial.
Sua longevidade chegou também às competições de veteranos, nas quais conquistou novos títulos mundiais.
Talvez esse aspecto de sua carreira seja tão interessante quanto sua chegada ao topo.
Quando alguém perde aquilo que a tornou famosa, surge outro tipo de adversário: a tentação de acreditar que sua melhor fase ficou para trás.
Nona continuou jogando.
O título mudou de mãos.
A enxadrista permaneceu.
O legado de Nona Gaprindashvili vai além dos títulos
Décadas depois de suas maiores conquistas, Nona voltou inesperadamente aos holofotes por causa de uma série de televisão.
Em O Gambito da Rainha, da Netflix, uma fala afirmava que Gaprindashvili nunca havia enfrentado homens em competições.
O problema era simples: essa afirmação não correspondia à sua trajetória.
Nona processou a Netflix em 2021, contestando a forma como sua carreira havia sido retratada. Em setembro de 2022, as partes chegaram a um acordo e encerraram a disputa. Os termos não foram divulgados.
A controvérsia acabou chamando novamente a atenção para justamente aquilo que tornava sua história tão extraordinária:
Gaprindashvili realmente havia competido muito além das fronteiras do xadrez feminino.
Seu legado também permaneceu institucionalizado no próprio esporte. Seu nome foi dado ao Nona Gaprindashvili Trophy, prêmio relacionado ao desempenho combinado das equipes aberta e feminina nas Olimpíadas de Xadrez.
Mais de seis décadas depois de sua conquista mundial, Nona continua sendo lembrada como uma das figuras fundamentais da história do jogo.
Mas talvez números, troféus e títulos contem apenas metade dessa história.
No Clube de Xadrez Genial, Glória voltou os olhos para o tabuleiro.
Agora a pergunta inicial de Marla parecia pequena diante da resposta.
Nona não se tornou importante apenas porque foi a primeira mulher Grande Mestre.
Ela se tornou importante porque, antes que outras pudessem seguir aquele caminho, alguém precisava mostrar que o caminho existia.
No xadrez acontece algo parecido conosco.
Uma posição difícil pode parecer impossível.
Uma abertura pode parecer complicada demais.
Um adversário mais experiente pode parecer inalcançável.
Até começarmos a entender.
Então aparece uma jogada.
Depois outra.
E aquilo que parecia uma parede começa a parecer um caminho.
Essa talvez seja uma das maiores lições deixadas por Nona Gaprindashvili:
não confundir aquilo que ainda não conseguimos fazer com aquilo que não podemos aprender a fazer.
Seu próximo movimento começa agora
Grandes enxadristas chegaram longe porque aprenderam a enxergar o tabuleiro de outra maneira.
Você não precisa começar pelo topo.
Precisa apenas escolher seu próximo passo.
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